Mala de Senhora e outras Histórias – Clara Ferreira Alves

mala-de-senhora-e-outras-historiasMala de Senhora e outras Histórias. trata-se de um livro de pequenos contos independentes, originalmente publicado em 2004 e que segundo a jornalista/Escritora em Portugal este continua a ser um género de literatura menor; sublinhando ainda que: «Na verdade, contar contos e histórias é um dos sinais da literatura, e o que não se consegue fazer em pequeno, jamais se conseguirá fazer em grande».

Na globalidade apreciei bastante a escrita e a qualidade dos contos mas também a forma clara, mordaz, incisiva e na maioria das vezes assertiva e na forma como isso passa para o leitor. Recomendo

1.  O COLECCIONADOR

 Trata-se de um pequeno conto com pouco mais de 12 páginas,  e em que fiquei de (olhos arregalados) pensando «não vou gostar disto» pelo simples facto de ser um leigo em matéria de arte, visto que a autora é descritivamente abundante na enumeração das obras e nos nomes dos grandes mestres da pintura (por exemplo) embora conheça alguns… fiquei logo de pé atrás mas qual não foi o meu espanto, quando cheguei ao final previsível desta pequena história e me arrepiei, embora estivesse ciente de ante-mão que seria este o seu desfecho. O conto retrata dois homens tio e sobrinho: o primeiro um velho aristocrata arruinado, o segundo um escritor frustrado que toma conta do seu parente. em Paris num café ambos travam conhecimento com uma senhora e desenvolvem uma conversa em torno da pintura. posteriormente numa visita que a senhora faz à mansão do homem mais velho é guiada por este na observação da sua vasta colecção de obras de arte, mas…. (não irei então contar o resto da pequena história) para quem não leu este conto recomendo. para quem já conhece sabe do que estou a falar. Surpreendi-me, pois não estava a espera de gostar tanto. por vezes são estas pequenas histórias que nos fazem pensar um pouco mais naquilo que é verdadeiramente a essência do ser humano.

2. O CONTO E A HISTÓRIA

5 páginas chegam para a autora transmitir aquilo que quer: Um homem com hábitos bem vincados, recentemente viúvo, não tem amigos, vê de repente chegado o dia da reforma, não gosta de televisão, nem da mesa do café, viajar nem pensar! dedica-se então diariamente a contar as mortes que são anunciadas no jornal, que passa regularmente a comprar; homens,  mulheres, crianças, enfim mortos. até que um dia ao sair de casa… este pequeno conto faz-nos reflectir, para que serve afinal a vida e o que realmente queremos fazer com ela.

3. LOVE ONLINE

No dia 13, às 13:30h, do ano de 2013, uma mulher chega a casa e pensa em suicidar-se, sem pais, sem marido, sem ninguém, vive uma solidão num tempo em que os homens cada vez mais se desinteressam das mulheres, em que as relações, não são o que eram antigamente, inclusive o sexo, já não se faz corpo a corpo; é tudo virtual, a mesma mulher marca encontro com um suposto australiano, que teve a infelicidade de cometer um erro: envolver-se numa relação, chegando ao local do encontro tem uma desagradável surpresa. .. Este conto leva-me a pensar (e isso já acontece hoje em dia) nos ditos encontros que se dão por conversas em salas que existem para o efeito no vasto mundo cibernético, em que cada um é o que não é; ninguém tem nome, e toda a gente é alta loira e de olhos azuis, a vida às vezes pregamos partidas.

4. STRADA NUOVA

Um diplomata viajado e culto, homossexual frustrado, desde que se divorciou de uma  mulher que bebia demais e sempre o detestou, retira-se para Veneza onde resolveu que tinha o dinheiro suficiente para parar de fingir que gostava de trabalhar. Diariamente repara que entram e saíem várias vezes do hotel um estranho casal; ele bem mais velho que ela… Strada Nuova,  faz pensar até onde vai a personalidade humana. até que ponto conseguiremos manter as aparências?  ou até que ponto temos de nos submeter a certas situações em prol de determinado estatuto ou aparência.

5. O SONHO

Uma mulher senta-se na cadeira de um psico-terapeuta e começa a contar um sonho que teve, com 3 homens, o Pai, o ex- marido e o filho que morreu. Este conto, leva-nos a reflectir um pouco nos nossos fantasmas, nas nossas histórias… naquelas histórias que nos aconteceram e nos marcaram para sempre. até que ponto vivemos com elas, sonhamos com elas, e até que ponto elas decidem o rumo da nossa vida, seremos capazes de as superar, ou simplesmente convivemos com elas e deixamos que nos dominem?

6. VIRA O DISCO E TOCA O MESMO

Um homem está sentado, numa cadeira no meio do palco. À frente dele, uma mulher de pé, rodeada de duas cadeiras, uma de cada lado dele. Está a olhar em frente dele, a olhar para ele. Em cima de uma cadeira está uma cabeleira loira a outra está vazia. A mulher senta-se na cadeira vazia (entre o por e o tirar da cabeleira) o leitor não sabe se está numa plateia assistindo a uma peça, se está no sub-consciente do homem, ou no sub-consciente de ambas a mulheres que conversam com ele, gritam com ele, imploram, cada uma com os seus motivos, tão diferentes e tão iguais. as Mulheres são a Legítima e a Amante.

7. SAUDADES DE MIM

«O meu nome é Marco, agora sabe quem eu sou e porque estou aqui» é assim que começa mais este conto incluído no livro Mala de senhora e outras histórias. A acção desenrola-se no ano 2040, após a falência da Segurança Social,  e do Sistema nacional de Saúde, Mateus visita o seu amigo psiquiatra e dá de caras com Marco, fechado naquele hospício há 40 anos, foi no seu tempo, muito conhecido por ter participado num programa de televisão em que homens e mulheres eram fechados numa casa eram filmados 24 horas por dia, ate ao dia em que marco se passou e espancou uma colega no programa, foi obviamente expulso (…) não soube lidar com a situação e ali foi parar. Este conto leva-nos a pensar na fama, no estrelato e na ascensão repentina, de cidadãos anónimos, que vêm as suas vidas modificadas do dia para a noite, não estando minimamente preparados para aquilo, são verdadeiros hoje e amanhã?… amanhã já ninguém se lembra deles. As suas vidas nunca mais serão as mesmas.

8. LOURO RICO LOURO POBRE

Dois Louros, um rico, um pobre frequentam um ginásio, ambos se fazem às miúdas, um conta histórias se sítios que já visitou sem nunca lá ter estado, o outro esteve realmente lá,  um tem um saco que diz  Makro-Fixe, o outro um saco da Nike, comprado na Niketown em Nova York… uma disputa de classes sociais hilariante… mas quem levará a melhor?

9. O 25 DE ABRIL NUNCA EXISTIU

E se o 25 de Abril nunca tivesse existido? ou melhor e se o 25 de Abril, tivesse acontecido anos mais tarde? como teriam sido as coisas? uma verdadeira paródia Queirosiana ao dia da revolução, nomes bem conhecidos (trocados) da nossa história recente, compartilhadas por Manuel Dias Boavida o personagem condutor deste conto, também conhecido na redacção do Expresso como Dias à Vida.

10. OS DIAS DE DURBAN

Álvaro viaja até à cidade de Durban na África do Sul, e chega à procura de um fantasma, que tem em comum consigo o nome Álvaro de Campos, uma Pessoa como ele… ou melhor Fernando Pessoa, uma Viagem ao passado, percorrendo todos os passos que o Solitário Pessoa poderá ter dado enquanto passou a sua infância naquela cidade…. impressionante conto, que merece ser lido e reflectido.

11. CONVERSA DE GAJAS (ALL ABOUT EVE)

Hilariante este conto; uma famosa escritora com carreira solida, acaba por contratar uma saloia, que mais tarde se apodera da sua pessoa, das suas roupas, da suas palavras da sua escrita… do seu marido, perdão o Ex-marido, actual marido da saloia, uma história sobre uma alpinista social, sobre a inveja e a dor de cotovelo e de como de desmoronam os grandes castelos… enquanto outros se erguem.

12. MALA DE SENHORA

A carta chegou de manhã, vinha dirigida à mulher, a mala estava pronta… a mulher que entretanto faleceu (cancro) o marido, aquele que nunca foi fiel, em tanto anos, comprava objectos para ela substituído o amor, comprava sexo com outras e tudo aquilo que o dinheiro poderia comprar. dinheiro nunca foi problema. mas isto? seria uma brincadeira?… tocante conto talvez o melhor deste livro, que nos faz pensar um pouco que nunca é tarde para reparar erros, que só quando chega a perda, nos apercebemos de quão importante é aquilo que desperdiçamos… ou não…

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O Pintassilgo – Donna Tartt

o-pintassilgoO Pintassilgo marca a minha estreia e a dos leitores Portugueses com o trabalho da Americana Donna Tartt cujo a estreia aconteceu no romance “A História Secreta” em 1992 e publicado em Portugal em 2015.
Este livro que à partida poderá assustar pelo seu descomunal tamanho (895 páginas), foi-me oferecido pelo meu aniversário em 2014 e foi uma leitura que fui adiando, adiando e que finalmente aconteceu este ano, quando já toda a gente o tinha lido!
Foi uma leitura sem pressas e que me ocupou praticamente um mês inteiro (Maio e Junho de 2016).
Inicialmente não “atinei” com o modo confuso como a autora lançou personagens e história que arranca anos depois da tragédia descrita na sinopse. Essa mesma tragédia é um pouco confusa e que a páginas tantas não se percebe bem se é uma memória de um Theo adulto ou se a história entrou finalmente no trilho pretendido.
Esta parte é deveras confusa e só se entende mais à frente quando após umas boa páginas lidas, regressamos à introdução para tentar perceber melhor (se no fundo percebemos tudo).
Estranho? sim… mas foi assim a minha experiência.

Após este inicial “percalço” entrei de corpo e alma na leitura de O Pintassilgo, que se veio a revelar uma leitura fenomenal e de uma intensidade que por vezes me fez abrandar e recuperar o fôlego.
Repleto de pensamentos e momentos absolutamente geniais esta obra não se resume apenas a meia dúzia de adjectivos.
Sobrevivência, Segredos, Ambição, Segredos, Hipocrisia, Transformação, Desonestidade, Segredos, Salvação. Tudo aquilo que descreve a minha experiência com este livro. (a palavra “Segredos” não está aqui ao acaso, nem repetida por engano). Todos nós temos segredos! e todos nós nos fazemos por vezes acompanhar e enredar por segredos que maiores ou menores nos levam muitas vezes a entrar por mares nunca dantes navegados e em túneis obscuros e perigosos do qual dificilmente conseguiremos encontrar saída.

Sofremos, vivemos e transformamo-nos com Theo à medida que vamos crescendo ele. De pequeno e vulnerável rapaz a adolescente irresponsável, Até que descobrirmos um adulto detestável que pensávamos conhecer.

Se por um lado, tentamos compreender os motivos que levam Theo Decker a seguir por determinado caminho, por outro, existe uma vontade incontrolável de o castigar pelas suas escolhas.

Escolhas, algo que define aquilo que queremos ser, daquilo que somos. Algo que define Theo e que define O Pintassilgo.
Repleto de personagens, lugares comuns e frases soberbas, este é um livro que me deu muito prazer ler. Não sei se o melhor… mas até agora uma das melhores leituras do ano.

Continuação de bons Livros para ler!

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Sinopse:
Quando Theo Decker, nova-iorquino de treze anos, sobrevive milagrosamente a um acidente que mata sua mãe, o pai o abandona e a família de um amigo rico o adota. Desnorteado em seu novo e estranho apartamento na Park Avenue, perseguido por colegas de escola com os quais não consegue se comunicar e, acima de tudo, atormentado pela ausência da mãe, Theo se apega a uma lembrança poderosa de seu último momento ao lado dela: uma pequena, misteriosa e cativante pintura que acabará por arrastá-lo ao submundo da arte.

Já adulto, Theo circula com desenvoltura entre os salões nobres e o empoeirado labirinto da loja de antiguidades onde trabalha. Apaixonado e em transe, ele será lançado ao centro de uma perigosa conspiração.
O pintassilgo é uma hipnotizante história de perda, obsessão e sobrevivência, um triunfo da prosa contemporânea que explora com rara sensibilidade as cruéis maquinações do destino.

Passageiros da Neblina – Montserrat Rico Góngora

passageiros da neblinaEste livro foi-me oferecido no Natal de 2015, fiquei bastante entusiasmado e decidi pegar-lhe logo a 1 de Janeiro. Há largos anos que mantenho o ritual de iniciar uma nova leitura no primeiro dia do ano e este não foi excepção.
A sinopse é deveras entusiasmante, a ficção a envolver-se com factos reais, a bela e misteriosa Vila de Sintra e locais maravilhosos e enigmáticos que conheço bem como a Quita da Regaleira, o Palácio da Pena ou o Palácio de Monserrate e personagens carismáticos como o Poeta Fernando Pessoa ou Aleister Crowley um dos mais temíveis e estranhos personagens dos séculos XIX e XX (poderão pesquisar um pouco sobre a vida deste homem).

O meu entusiasmo foi perdendo o fulgor e acabou por dar lugar ao tédio. Aquilo que tinha tudo para ser uma leitura bastante agradável veio transformar-se num aborrecimento total. fui pondo o livro de lado, passando outros à frente e ao cabo de uns dois meses lá o concluí

O Livro divide-se em duas partes que acabam no fundo por ser 3 partes distintas na acção e no tempo. A primeira no início da década de 30 do século passado, leva-nos à descoberta de uma Lisboa desaparecida e traz-nos também um Fernando Pessoa “pessoa” como qualquer um de nós.
Nesta primeira parte bastante entusiasmante acompanha-mos um inspector da Scotland Yard que juntamente com João Lopes tentam descobrir o homem e a verdade por detrás do mito: Aleister Crowley que desaparece misteriosamente na Boca do Inferno aparentemente a causa parece ser o suicídio, existindo inclusive uma nota de suicídio. Mas a estranha ligação de Fernando Pessoa com Crowley lança os dois homens na procura de novas pistas para o caso. Super entusiasmante este curto início. Depois disso…. mais nada acerca deste assunto.
Creio que é aqui onde a maioria dos leitores que já leram estes passageiros da Neblina se desiludem. Se esperam descobrir mais alguma coisa entre a ligação de destes dois personagens esqueçam.

Na segunda parte do livro somos arrastados para trás no tempo de forma abrupta, o ritmo cai a pique tornando-se pastoso e desinteressante, demasiadamente descritivo, com personagens menos interessantes e o resultado é o desinteresse absoluto. O fio condutor Crowley acaba por se perder totalmente, para reaparecer apenas num final mais que previsível e portanto: desinteressante.

Valeu pela viagem a Sintra local Mágico apenas a meia hora de Lisboa.
Uma Vila Misteriosa que causa sempre uma impressão estranha, como se todos os segredos ali estivessem guardados.
Apesar de tudo consegui terminar este misto de história e esotérica à Portuguesa (escrito por uma Espanhola)
Para mim é apenas mais um livro entre os muitos que tenho lido pela vida fora.
Não deixará muitas saudades.

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Sinopse:
O encontro ocorreu em Setembro de 1930, quando Aleister Crowley chegou inesperadamente a Lisboa, com o pretexto de conhecer Fernando Pessoa, com quem se correspondia há algum tempo, em torno de interesses comuns em astrologia e esoterismo. O poeta recebeu-o no Cais da Rocha do Conde de Óbidos mas pouco mais se sabe sobre o que se passou entre eles. Crowley, conhecido por muitos como a Besta 666, foi uma das figuras mais enigmáticas do seu tempo. Expulso de Itália por Mussolini, sobre ele recaíram as acusações de culto ao demónio e práticas de magia negra. Dias depois da sua chegada a Lisboa, o mágico ocultista foi a Sintra jogar uma misteriosa partida de xadrez e desapareceu nos penhascos da Boca do Inferno, deixando uma críptica nota de suicídio. Especulou-se bastante sobre o eventual envolvimento de Pessoa na suposta encenação macabra.

A partir deste encontro, a escritora cria uma história sobre uma maldição com mais de cem anos, que atravessa gerações, onde personagens fictícias convivem com outras personalidades reais, como Charles Darwin, George Everest e o jornalista Augusto Ferreira, amigo do poeta. “Um caso de polícia intrigante, novos crimes, uma família atravessada por silêncios, loucura e amores secretos, as lutas religiosas e políticas da época, a simbologia e as práticas maçónicas”

Os Números que venceram os Nomes – Samuel Pimenta

Os Números que venceram os NomesOs Números que Venceram os Nomes”, marca a minha estreia com a escrita de Samuel Pimenta de quem apenas tinha lido alguns textos soltos e alguns artigos publicados.
Estive presente no lançamento na FNAC/Chiado a 17 de Setembro de 2015, onde tive o prazer de poder “espreitar” de perto o que tinha para dizer aos seus leitores este jovem autor. A maturidade com que apresentou e falou desta obra foi o que mais saltou à vista.
Este lançamento foi duplamente proveitoso e feliz para mim, acabei por encontrar duas “velhas” amigas a Márcia e Patrícia (Planeta Márcia) e (Ler Por Aí) respectivamente.
No lançamento deste Romance tive também o gosto de poder contar com as amigas Carmen e Katerina ambas com o gosto pela Leitura e entusiastas apreciadoras da escrita do Samuel.

A sinopse extremamente interessante convenceu-me a trazer comigo o Livro que foi simpaticamente autografado pelo Autor.

Após uma ou duas horas bem passadas em amena e produtiva conversa com as “Rodistas” Márcia e Patrícia, voltei para casa e como nesse dia não trouxe carro para Lisboa, apanhei o barco com destino à outra margem do Tejo, tempo suficiente para iniciar a leitura de “Os Números que Venceram os Nomes”. No pouco tempo que levei na travessia do rio para a outra margem, envolvi-me de tal forma com este romance que já não o consegui largar nessa noite.
A Acção passa-se num período indefinido do futuro, (supostamente longínquo), Uma sociedade tecnologicamente avançada, Guerras, Doenças, Religiões, são coisas do passado, já não existem. Os homens são números, as ruas são números, os nomes são números. Uma sociedade controlada, onde não existe memória ou lembranças… Apenas números.
A fazer lembrar ao de leve o Clássico de Orwell (o famoso Big brother de 1984) este romance vai bem mais além do controlo absoluto dos movimentos dos cidadãos. Ultrapassa e esquece a memória, alimentando máquinas, não gente.
Mas alguns pormenores que à partida nos poderão parecer absurdos, irrealistas e muito pouco prováveis de acontecerem fazem com que o leitor pense bastante acerca da actual realidade: Estará esse futuro assim tão longe?
Qualquer semelhança, com o percurso que a Humanidade começa largos a percorrer, não está assim tão distante da acção de “Os Números que Venceram os Nomes”.

O quebrar das Regras, Fé, Resistência, Descoberta e o Não Conformismo são os ingredientes que agarram o leitor de frente. Um livro que fluí página a página para dentro da alma. Um Futuro desconhecido demasiado próximo com o presente. O poder de um Nome.

“Os Números que venceram os Nomes”é de tal forma envolvente que quando chegado o final, o leitor fica à espera de mais… (pelo menos no meu caso soube-me a pouco). Mas como já o disse algumas vezes: «Quem não é capaz de o fazer em pequeno, jamais será capaz de o fazer em grande».
Samuel Pimenta vai para lá do grande, para mim é seguramente um dos melhores livros em Língua Portuguesa de 2015.

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Sinopse:
O que é um nome? — A pergunta ressoou por toda a divisão, embateu nas paredes e voltou ao emissor sem obter resposta. Um Nove Um Seis estava sentado na única cama do quarto número onze do hospício. Via as paredes do quarto a girar como se tivessem sido empurradas por uma criança que brinca com um globo terrestre pela primeira vez. Além disso, sentia-se como se estivesse de olhos abertos debaixo de água, estava tudo turvo. Era efeito dos fortes medicamentos. Sentado numa cadeira ao lado da cama, um médico observava-o de testa plissada, enquanto segurava uma folha no colo, onde fazia algumas anotações.

1ª edição 2015 | Marcador
ISBN:  9789897541766

A Rapariga apanhada na Teia de Aranha – David Lagercrantz

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Como fã da série Millennium não poderia deixar passar este novo livro que volta a reunir Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander.
Três anos depois de ter lido aquela que se ficou apenas pela Trilogia Millennium, regressei à série e foi com um misto de satisfação e desconfiança que me preparei para este “A Rapariga apanhada na teia de Aranha”

Avancei para a leitura, e parti quase sem expectativas para evitar novas desilusões literárias como já aconteceu anteriormente. Evitei a todo o custo ler opiniões de outros leitores limitando-me apenas a passar os olhos pela sinopse, sempre consciente de poderia cair na tentação da comparação.

Apenas posso garantir que em momento algum senti que não estava diante de um livro de Stieg Larsson, o que muito me surpreendeu.
Inicialmente tive algumas dúvidas em relação ao método utilizado por David Lagercrantz para levar a bom porto a “continuação” da saga.
A impressão com que fiquei é que estava perante duas histórias, mas que uma nada tinha a ver com a outra, quase como se fossem dois livros diferentes, onde um deles é simplesmente atirado à sua sorte “e logo se vê o que vai dar”.
Foi preciso avançar umas boas páginas para perceber que afinal o autor estava apenas jogar com o leitor.

Como referi é quase impossível não entrar na onda da comparação… Mas esse é o maior erro que o leitor pode cometer. É difícil mas há que tentar! e acreditem que o esforço vai compensar.
Lisbeth Salander é porventura uma das personagens maiores da literatura recente, graças ao seu carisma, à sua força e sobretudo graças à sua “essência”, se a série Millennium conquistou milhões de fãs um pouco por todo o mundo; ganhando o estatuto de série de culto a Salander o deve, sem ela, seria apenas mais um policial/thriller nórdico.
A minha opinião vale o que vale… mas posso assegurar que quem vá procurar a essência que Larsson criou na sua obra a irá encontrar novamente.

Li algures que O autor se terá inspirado no  caso Snowden e nas suas divulgações bombásticas relativamente à N.S.A. para criar este novo livro. O certo é que temas como o autismo, a espionagem industrial, venda de segredos e informações, inteligência artificial, segurança nacional, jogos de poder e de interesses, suportam excelentemente o esqueleto utilizado e relançam Blomkvist e a Millennium novamente para o caminho da fama.

A herança que Lagercrantz herdou, não deve ter sido Pera-doce, mas cumpriu e bem a missão que lhe foi confiada não apenas lhe deu um seguimento credível como também lhe deu um cunho pessoal enorme. Com isto Lagercrantz marcou não apenas pontos, mas um território que passa a ser seu e que alcança com mérito.
Uma leitura compulsiva, viciante e que em nada fica a dever aos seus antecessores.
Aguardo com ansiedade o próximo volume que de acordo com as fontes oficiais, nos irá trazer uma nova aventura em 2017.

Valeu a pena a espera.

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Sinopse:
Neste thriller carregado de adrenalina, a genial hacker Lisbeth Salander e o jornalista Mikael Blomkvist enfrentam uma nova e perigosa ameaça que os leva mais uma vez a unir as suas forças.
Uma noite, Blomkvist recebe um telefonema de uma fonte confiável declarando ter informação vital para os Estados Unidos. A fonte tinha estado em contacto com uma jovem mulher, uma super-hacker que se parecia com alguém que Blomkvist conhecia bem de mais. As consequências são surpreendentes.
Blomkvist, a precisar urgentemente de um furo jornalístico para a Millennium, pede ajuda a Lisbeth, que, como habitualmente, tem a sua agenda própria. Em A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha, o duo que fez vibrar 80 milhões de leitores com Os Homens Que Odeiam as Mulheres, A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo e A Rainha no Palácio das Correntes de Ar encontra-se de novo num actual e extraordinário thriller.

Madame Bovary – Gustave Flaubert

madame bovaryTrês dos meus autores favoritos são de língua Francesa, (por coincidência, todos eles do mesmo século) são os meus favoritos porque os li e me apaixonei por eles. Li-os enquanto estudante e sem obrigações (bendito professor) e ainda hoje de xis em xis anos os volto a ler, sempre com redobrado agrado e quase sempre como se fosse a primeira vez, pois descubro sempre um ou outro pormenor que me passou ao lado.
A par de Dumas e de Verne, Gustave Flaubert está sem dúvida entre eles, não apenas com Bovary, mas também pelos inesquecíveis “Salammbô” e “A Educação Sentimental”.
Segundo reza a “lenda” Flaubert terá morrido, quase na miséria, após ter perdido grande parte do seu património para ajudar alguns parentes, mas terá dito: «Irei morrer, mas a puta da Bovary irá sobreviver-me» Mais de 150 anos depois da sua publicação original, Madame Bovary continua tão actual, como se tivesse sido escrito ontem, pois embora se mudem os tempos e as vontades existem certos temas que ainda hoje causam alguns constrangimentos. É certo que se Flaubert lesse o pornográfico livro do senhor “Grey” e os seus derivados, acredito que morresse na hora com uma apoplexia.

O mundo mudou, mas a forma como hoje são tratados certos assuntos mais ou menos íntimos banalizou-se de tal maneira que hoje são considerados “normais”, no entanto… fora dos livros, sabemos que esses assuntos continuam a suscitar interesses sórdidos e mexericos de toda a espécie, causando danos graves na vida das pessoas e que ainda hoje podem ser fatais. O ser humano evoluiu, mas ainda hoje no século XXI quando falamos de adultério, muitas mentalidades parecem ainda habitar o longínquo século XIX, tão bem retratado por Flaubert em Madame Bovary. Justiça seja feita a este autor, que pagou caro o facto escrever e ousar falar sobre um assunto que era um sacrilégio, mas que sem dúvida foi inspirador para outros escritores como Emile Zola (O Crime do Padre Mouret) ou  Guy de Maupassant (Bel-Ami) e atrevo-me a dizer que talvez até os nossos Eça, Camilo, ou Júlio Diniz, não tenham ficado insensíveis ao tema e à polémica, como se veio a comprovar mais tarde com as publicações dos eternos “As Pupilas do Senhor Reitor” e  “Amor de Perdição” e claro os imortais “Os Maias” “O Primo Basílio” ou “O Crime do Padre Amaro”

Cada leitor retira de um livro opiniões e experiências únicas e por vezes muito diferentes quando comparadas com as de outros leitores e Madame Bovary é sem dúvida um livro que causa as mais diferentes sensações num leitor. Emma consegue ser amada por uns e odiada por outros, no entanto esta obra é muito mais do que um livro que aborda o adultério, Flaubert soube recriar e aprofundar a época e as mentalidades mas arriscou demasiado ao decidir levar para a frente este livro, não só pela sátira à classe burguesa, mas também por mordazes críticas à religião católica pela personagem do Sr. Homais (o farmacêutico). Nota-se claramente as opiniões formadas que Flaubert tinha em relação a este assunto. O autor foi julgado em tribunal por atentado aos preceitos morais e religiosos, aquando da publicação de Madame Bovary.

Lido hoje em dia este livro não deixa de fazer sorrir o leitor, não apenas pelo seu tom trágico e fatalista e demasiado romântico (como eram quase todos romances da época).
Esta história que a nós em pleno século XXI  parece quase uma comédia e que a ser verdade, se resolvia com um simples divórcio e ponto final, era para a sociedade da época um crime e um atentado à moral e à sociedade. Mulheres como Emma Bovary tinham muito a perder, se cometessem adultério, seriam isoladas e perderiam os poucos direitos que tinham. (nesta altura as mulheres eram consideradas uma raça inferior)
Inicialmente Flaubert apresenta-nos Charles Bovary, filho de uma família de pequenos burgueses (a classe média-alta daquele tempo) que desde os seus tempos de rapaz de escola era já um pateta e gozado pelos seus colegas, mas a custo lá conseguiu tornar-se médico, algo que para a sua mãe a Senhora Bovary era motivo de orgulho. Mais tarde Charles acaba por casar com uma mulher dominadora e controladora, mas para sua sorte (ou não) acaba por ficar viúvo.
Após ter tratado o Sr. Rouault, de uma perna partida, Charles começa a cortejar a filha do agricultor, Emma  que conquista Bovary com a sua beleza e forma de estar na vida. A rapariga é uma sonhadora e apercebemos-nos  de imediato que é uma mulher caprichosa, habituada a conseguir tudo o que quer por ser orfã de mãe e filha única. O que ela sabe da vida é apenas aquilo que vem nos muitos romances que leu, para ela a vida era aquilo que os romances descreviam. É sempre questionável nesta altura (a nós leitores) se Emma era apenas ingénua ou simplesmente tola? Para mim, nenhuma das respostas está correcta…  por muito que Flaubert tente fazer crer o contrário, Emma é dissimulada do início ao fim do livro. A futura senhora Bovary, aproveita aqui a oportunidade de deixar a casa do pai e criar a sua própria vida.
No início do casamento Madame Bovary, cumpre o seu papel de boa dona de casa e de esposa perfeita, no entanto Emma quer mais, pois o que tem não lhe chega. Cedo, chega à conclusão de que o seu casamento foi um engano e de que Charles não é marido para ela.
Madame Bovary é infeliz e sente-se só, afinal o casamento não é o conto de fadas que sempre sonhou. A monotonia e as constantes ausências de Charles que está fora em trabalho, vêm corroer mais rapidamente o casamento do jovem casal. Charles nunca se apercebe de que Emma é infeliz e idolatra a mulher, para ele o importante é que ela esteja ali, sempre disponível para ele.
Mais tarde Emma deixa-se envolver por Rodolph um burguês que apenas se quer aproveitar da beleza da atraente mulher, sem no entanto querer nada de muito sério. Completamente apaixonada a senhora Bovary, acaba por trair o marido, mas com o passar do tempo, começa a revelar um comportamento possessivo e doentio e o amante perde todo o interesse nela.
Habituada a que Charles lhe dê quase tudo o que deseja, a mulher começa a fazer compras desnecessárias e a destruir, sem que o marido se aperceba o património da família.
Mais tarde Emma reencontra Léon, um jovem que anos antes se apaixonou por ela e volta novamente a trair o marido encontrando-se regularmente com o novo amante. Começa então a ser descuidada e a empenhar-se de tal forma, que só consegue parar quando é penhorada pelo tribununal, pois não consegue cumprir nenhum dos compromissos que assumiu. Emma chega a pensar inclusivamente em prostituir-se para conseguir pagar todos os excessos que foi cometendo ao longo dos anos.

O final destinado a Emma  é sobejamente conhecido pelos leitores, A horrível Madame Bovary, com todos os seus defeitos conseguiu de facto sobreviver a Gustave Flaubert e tornar-se numa heroína, que ganhou um estatuto imortal na história da literatura.
É um livro que recomendo, e que deve ser lido pelo menos uma vez na vida.
É um dos livros que fará sempre parte da  minha Biblioteca Ideal.

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Sinopse:
Emma, nascida no seio de uma família da pequena burguesia, foi criada no campo e aprendeu a ver a vida através da literatura sentimental. Bonita e requintada para os padrões provincianos, casa-se com Charles, um médico de província tão apaixonado pela esposa quanto entediante. Nem mesmo o nascimento da filha dá alegria ao casamento, a que Emma se sente presa. Revoltada com a sua vida, Emma perseguirá os seus sonhos, com consequências trágicas.